
Quem tem mais de 30 anos deve se lembrar das mudanças propostas por um jornal norte-americano, o USA Today, no meio dos anos 80. Cansado do jornalismo com bases conceituais ainda da década de 50, o jornal se inspirou na TV. Afinal, quem hoje não tem ou não vê televisão, em especial os telejornais. Assim, o jornal abusou de cores e fotos, e diminuiu textos e quantidade de notícias. O USA Today resolveu ir além da TV e não apenas repetir o noticiário. Enquanto a TV tem instantaneidade, o jornal, em tese, já chega velho às bancas, pois a edição que chega com as primeiras luzes do dia nas bancas, foi finalizada na noite anterior. Tal fórmula inspirou o então nascente Hoje em dia (www.hojeemdia.com.br) que sacudiu o preguiçoso mercado mineiro de jornais e já chegou aos 21 anos ininterruptos.
Pois bem, a “Folha de S. Paulo” vem fazendo este mesmo caminho, só que seu alvo não é mais a TV e sim a internet. E parte da seguinte premissa: o papel que cabe aos jornais impressos é a análise. Portanto, terá textos cada vez mais curtos e vai jogar pesado em seu bom time de colunistas. O grupo pode se dar ao luxo de fazer este tipo de aposta. Dona do Universo On Line (www.uol.com.br), o site é um dos mais acessados e tem um invejável volume diário de informações. Além do noticiário em tempo real, são dezenas de blogs e outras parafernálias da rede mundial de computadores. Com todo este oceano de informações, a edição impressa já chega meio caduca na casa dos assinantes.
Futebol, paixão nacional
Um bom exemplo é o futebol. Com as partidas acontecendo cada vez mais tarde – em função dos horários da TV que sustenta muitos clubes – é difícil imaginar alguém que compre um jornal para saber o resultado de uma partida na noite anterior. Mesmo porque, aqueles que não acessam a rede, têm no prosaico radinho de pilha um aliado fiel. O sujeito quer mesmo saber de análises dos comentários. As mudanças são, em última análise, bem-vindas.
Mas sempre há um porém. A tendência à monopolização. Três ou quatro grupos detêm o poder da comunicação no Brasil. Folha, Estado e Globo, além de jornais arrasa-quarteirões, também são donos de agências de notícias e a maioria esmagadora dos jornais Brasil afora como não tem capacidade de manter repórteres em Brasília, limitam-se a publicar o que as agências de tais grupos distribuem. Sem mencionar uma série de notícias que interessam somente ao chamado eixo Rio- São Paulo e que é levado para um indefeso leitor do “Diário de Borborema” no interior da Paraíba.
E como não há santos na história, é sabido que os três grupos têm lá seus interesses políticos. São todos discretos (ou nem tanto) aliados do tucanato paulista e José Serra já é tido, nas entrelinhas, como o futuro presidente do Brasil. Sem mencionar outros preconceitos não menos votados: uma certa indisposição com o Nordeste, com os movimentos sociais e arrogância de querer ditar normas para o resto do Brasil passando por cima de hábitos e costumes.
Mas ainda bem que a própria internet que inspira a “Folha” é a mesma onde a informação circula livre e um número cada vez maior de blogs e sites alternativos faz uma outra leitura do Brasil atual.
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