
De todas as leis pensadas, criadas e sancionadas pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva, nestes cinco anos e meio de governo, talvez a mais polêmica seja a chamada Lei Seca, em vigor desde o dia 20 de junho e que prega tolerância zero com a perigosa combinação bebida alcoólica-direção. Agora, ninguém mais pode dirigir com qualquer dosagem de álcool no sangue. Antes era tolerado um limite de 0,6 gramas de álcool por litro de sangue – o equivalente a duas latas de cerveja ou duas doses de bebidas destiladas (cachaça ou uísque).
Pronto. Parece que o mundo vai desabar e os catastrofistas já prenunciam a falência em série de bares e restaurantes enquanto outros criticam o moralismo do governo em relação às bebidas. Há ainda os que temem pela corrupção, batendo no velho adágio de que os ricos vão ficar livres e os pobres é que vão pagar o pato. Como se a gente tivesse que deixar de elaborar leis por conta desses tristes vícios.
Interpretações com um mesmo sentido
Com tanto oba-oba é melhor esclarecer, já que o sentido da lei parece ter ficado oculto. É proibido dirigir depois de beber. Ninguém está proibindo ninguém de encher a cara. Não se trata de proibir porres homéricos. Trata-se de um princípio: bebum no volante, perigo constante. E é aí que entram em ação questões conceituais, quase que ideológicas. Há de se ter amplo, total e irrestrito apoio às ações individuais, desde que, repetindo, desde que, o conjunto da sociedade não seja prejudicado. Fosse assim o sujeito poderia pegar o carro, sair a 160 km/h, avançar sinais, desrespeitar cruzamentos e alegar que ele tem o direito de assim proceder, já que o carro é seu e todos os impostos estão pagos.
O Estado tem a prerrogativa e o direito de interferir. Eu disse o Estado que, embora poucos se lembrem, é diferente de o governo. Nosso trânsito é dos mais violentos do planeta. E não por falta de estrutura, de investimentos, do excesso de buracos nas estradas. É por falta de educação mesmo.
O pior é que o cidadão comum vive a reclamar que o governo não faz nada, que os impostos são escorchantes e outras lamúrias – algumas com plena justificativa, diga-se de passagem. Quando o Estado resolve agir e fazer com que o cidadão se enquadre, vem uma série de reclamações e ações judiciais – a exemplo do que está prometendo uma entidade que reúne proprietários de bares e restaurantes. Corporativismo é bobagem!
Números
Em tempo e para a reflexão do amigo leitor: de 1º de fevereiro até o dia 30 de maio (os dados de junho ainda não foram contabilizados), ocorreram 32.387 acidentes, com 1.497 mortos e 18.557 feridos. Os números são da Polícia Rodoviária Federal e se referem a acidentes registrados em 61 mil km de estradas federais. Pode não estar diretamente ligado ao consumo de álcool. Mas é um número que precisa ser, urgentemente, minimizado.
Publicado no "BrasilNews", jornal da comunidade brasileira no Canadá
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