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quinta-feira, 26 de março de 2009

Clodovil, de vítima a herói


“Sei que amanhã/ quando eu morrer/ os meus amigos vão dizer/ que eu tinha um bom coração/ (...) Por isso é que eu penso assim/ Se alguém quiser fazer por mim/ Que faça agora”

A música, de Nelson Cavaquinho e Guilherme de Brito, retrata bem o que sempre acontece: basta morrer para se perdoar vicissitudes e defeitos. Tudo bem: a morte continua sendo um mistério a embalar religiões e seitas desde que o mundo é mundo.


Tratado como excêntrico quando foi eleito deputado federal, o estilista, costureiro e polêmico apresentador de TV Clodovil Hernandes mereceu horas na TV, páginas e mais páginas impressas e em sites. Primeiro o gabinete que recebeu decoração diferente. Depois suas picuinhas com colegas, uma briga dentro de um avião e alfinetadas (sem trocadilho com suas costuras, por favor) em colegas e na instituição que o acolheu.


Sem falar que foi veladamente criticado quando não cerrou fileiras nem defendeu as mesmas bandeiras homossexuais. Logo ele, um dos primeiros a se assumir nesta condição quando os tabus ainda eram mais fortes do que hoje.


Eleito democraticamente com 490 mil votos, sua ideias eram menosprezadas e usou-se e abusou-se de uma certa maledicência ao divulgar seus primeiros projetos. Logo num Congresso contaminado de figuras bizarras e notórios ladrões do dinheiro público.


Mas sua morte silenciou este lado. Foi tido como avançado, como pioneiro, como mestre de uma geração, como corajoso e outros adjetivos. E tome horas na TV, páginas e mais páginas impressas e em sites. Até redescobriram projetos de alcance e repercussão.


Informação ou entretenimento?


Não é o caso de concordar ou discordar de Clodovil. Mas sim de colocar um olho mais crítico na cobertura oriunda de Brasília. A informação é tratada como mero entretenimento e não como um direito, um serviço à cidadania e aos interesses da população brasileira. O que vale é o engraçadinho, o inusitado, o diferente em meio a tantas notícias verdadeiramente importantes que merecem notas curtas, cantinhos disfarçados de página ou reportagens de TV sem o aprofundamento necessário.


E Clodovil foi mais uma vítima deste noticiário que em vez de informar e formar cidadãos, deforma e faz da política uma atividade menor. Fica chato repetir o surrado chavão que ao poder e aos meios de comunicação não interessa um cidadão consciente e bem informado. Mas a julgar por este tipo de cobertura fica evidente que a intenção é mesmo manipular a informação. A política é mal tratada e seus maus exemplos recebem mais atenção do que os bons. Estamos fartos de alguns políticos e sua conduta mais que condenável. Mas não isto não deve diminuir a atividade política, essencial para a vida moderna. Ao colocar todos na mesma vala comum – se bem que, reconheçamos, sobrem bem poucos – perdemos a oportunidade de se ensinar a votar e exercer a cidadania.


Clodovil, que chegou ao auge da fama do sucesso por conta dos meios de comunicação, também foi vítima deste perverso sistema que constrói e destrói mitos ao sabor da onda ou dependendo de quem está pagando a conta.

Um comentário:

Laura Ferreira disse...

Sua análise foi perfeita.