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De volta às origens

"O jornalismo é, antes de tudo e sobretudo, a prática diária da inteligência e o exercício cotidiano do caráter." Cláudio Abra...

sexta-feira, 26 de setembro de 2008

O dragão refugou

No mês de junho, escrevi neste espaço sobre a tentativa de ressuscitar o Dragão da Inflação. “Estão querendo ressuscitar o dragão. Imprensa manipula números, distorce fatos e cria uma falsa sensação de descontrole na economia.”

Poucos colegas – entre os mais afamados e os teimosos, como eu – se aventuraram a tocar o dedo na ferida. E parecia mesmo que a inflação estava de volta. Pois bem. Destaque do dia 6 de agosto do ano da graça de Nosso Senhor Jesus Cristo de 2008, no site de notícias G1: “Indicador da FGV teve variação de 1,12% em julho.
Com altas menores, preços dos alimentos contribuíram para queda do índice.”

Além da queda do índice – que, realmente teve seus picos e variações -, a notícia traz outra embutida: a que chama a atenção para a queda dos preços dos alimentos. 

Agora, ganha um doce quem adivinhar se a notícia teve o mesmo peso que a anterior, a que chamava a atenção para o retorno da inflação. É evidente que não. E se da última vez danei a fazer ligações ideológicas com uma parte da sociedade que aposta no fracasso de Lula e por isso minimiza seus acertos e escancara suas falhas, penitencio-me.

À mercê do imediatismo

Boa parte da nossa grande imprensa sofre mesmo é do imediatismo do fechamento. O jornalismo deixou de ser pensado e feito com uma responsabilidade quase que solene. Agora, vale tudo por uma boa manchete, simples de fazer e de explicar, e que venda o jornal. 

Ninguém aprofundou a questão da inflação, do preço dos alimentos, da alta do petróleo. O que interessa é o jornal de hoje que amanhã tem mais. Por inexperiência, má formação acadêmica e humanista, os jornalistas de hoje viraram uns burocratas da notícia. Infelizmente!

O que ficou quase que invisível e inexplicável ao sujeito que atende por três atribuições –leitor/cidadão/contribuinte – é que este espasmo de inflação e o conseqüente aumento da taxa de juros pelo Banco Central deixaram alegres os especuladores de sempre. 

Lucros com o desespero dos outros

Até mesmo o jornalista Elio Gaspari criticou esta postura: “No caso dos juros, Meirelles [Henrique Meirelles, presidente do Banco Central] ameaça com a propagação de uma epidemia que faz a felicidade da turma do papelório que se remunera com a expansão da moléstia.”

Não significa que a batalha esteja ganha. Mas, sim, que precisamos de mais seriedade e racionalidade. Não é para embarcar na onda otimista do governo, nem no discurso de terra arrasada da oposição. A inflação desacelerou mais que o esperado, porém pode voltar a crescer. Mas é preciso muito cuidado para, em nome da manchete do dia, não alimentar a especulação e, com ela, jogar lenha na fogueira de uma espiral inflacionária de triste memória.

(Publicado no "Brazil News) - jornal da comunidade brasileira no Canadá

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