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quarta-feira, 20 de janeiro de 2010

Campanha e preconceito

A campanha eleitoral que se aproxima tende a ser disputada ao rés do chão, ou seja, em baixo nível.

Dá para elevá-la, mas como o assunto divide paixões e posições antagônicas (nem tão antagônicas assim, se olharmos com cepticismo). Consideremos isso como um fator natural da política.

Mas o que não pode é a imprensa entrar neste clima de falta de propostas e partir para ofensas e críticas pontuais de mazelas dos candidatos.

A manchete de "O Tempo" desta quarta, 20 de janeiro, é um exemplo.

Dilma promete dinheiro para linha de metrô que não existe

A ministra, obviamente, incorreu em um erro. Desinformação, desconhecimento, lapso de memória, ato falho, ou tudo junto.

Não importa. Houve um erro que deveria ser considerado pela reportagem. E, em nome do bom jornalismo - aquele que manda ouvir "o outro lado" - checar a informação com a ministra
ou com sua assessoria.

Mas elevar o erro à enésima potência e superestimá-lo já entra em um reino perigoso. Principalmente porque o jornal enumerou outras gafes públicas de Dilma. Inócuas, diga-se de passagem.

E a intenção, deliberada ou inconsciente, é desmerecer a candidata. Não por suas posições políticas, seu programa, suas propostas. Mas por erros bobos. Não se trata de dourar a pílula e não registrar os erros. Mas dar-lhes a dimensão que merecem. Muito menos transformá-lo em manchete.

Erros, todos cometemos. Inclusive os próprios jornais. Mas transformar isso em campo de batalha é velha tática de uma boa parte da grande mídia.

O ex-governador paulista Franco Montoro era conhecido por trocar nomes. Proporcionou gafes - algumas engraçadas - em público. Isso diminui sua biografia ou mancha sua história?

Lula é tido como parvo, falastrão, demagogo, sem-educação, cachaceiro, analfabeto, peão e outras qualificações ao gosto de seus inimigos.

Antes que a pecha de lulista recaia sobre meus ombros, refresquemos a memória. O ex-presidente Itamar Franco, quando ocupava a Presidência, também foi igualmente atacado: mineiro, bobo, amante do pão-de-queijo, provinciano etc etc etc. Quem não se lembra da 'República do Pão de Queijo'?

Como não também não acrescenta nada ao debate e à campanha em si, falar dos atributos físicos de José Serra, do espírito carioca de Aécio Neves, da voz esganiçada de Marina Silva ou das vestimentas de Heloísa Helena.

Isso, de fato, empobrece o debate e deve passar longe das manchetes dos jornais.

Parece que Dilma também vai padecer com o mesmo preconceito. Antes mesmo de ser eleita. Se é que um dia vai ser.

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